Tanto o transporte marítimo como os portos devem ser pensados, não como entidades separadas, mas como componentes
interligados, como duas peças de uma engrenagem" Koji Sekimizu , Secretário-Geral da IMO

terça-feira, 3 de abril de 2012

Transportes Marítimos

A razão principal da insularidade dos Açores é a descontinuidade territorial com a plataforma continental europeia.
Os efeitos de tal situação refletem-se nos custos associados ao transporte de mercadorias e passageiros; no preço final de produtos e serviços ao consumidor; nas distorções da concorrência bem como na diminuição da competitividade em geral das empresas dos Açores (ou até mesmo da própria região em si, como um todo).
Esta situação poderia em parte ser ultrapassada com a existência de um serviço de ferry boat que utilizasse a “auto-estrada” marítima que nos liga ao continente, diminuindo assim os efeitos da descontinuidade territorial. No entanto, incompreensivelmente, os Açores são as únicas ilhas europeias sem beneficiar de um serviço de ferry boat.
Esta situação é inaceitável para os Açores.
Está-se a abdicar de uma alternativa de transporte de mercadorias e passageiros, fulcral para o desenvolvimento económico insular de outros arquipélagos como a Madeira e as Canárias.
Na realidade os ferrys têm custos de combustível semelhantes aos porta-contentores, mas com muito menos custo na carga e descarga; menor exigência ao nível das estruturas portuárias e uma maior rapidez nas operações de carga e descarga em virtude da facilidade e versatilidade da utilização de camiões TIR no manuseamento de contentores em trailers nas rampas RO-RO, sem necessidade de burocracia (o ferry chega, o passageiro pega no seu veículo e vai para o seu destino...).
Falta ainda referir que este tipo de transporte poderá ser uma alternativa ao transporte aéreo de passageiros (introduzindo-se assim alguma saudável concorrência) tornando-se numa alternativa para as deslocações dos residentes e abrindo-se novos mercados ao nível do turismo não convencional (sem intervenção de agências de viagens, com viatura própria ou até auto-caravanas), logo uma mais valia para a economia da região dos Açores.
Concluindo: torna-se necessário pensar em alternativas ao transporte marítimo por forma a deixar de fazer parte do problema tornando-se uma parte da solução no que concerne ao desenvolvimento do nosso arquipélago.
Seria desejável que neste ano de eleições regionais, os vários candidatos ao Governo Regional dos Açores se prenunciassem sobre este tema... aguardemos.
PS: Caso queira saber mais, sobre este e outros temas da Cidade de Ponta Delgada e Ilha de São Miguel, consulte a página de Facebook “PDL Ponta Delgada“.
(©) Copyright texto: Gonçalo Almiro Matos Costa, Ponta Delgada.

(©) Copyright fotos: António Sáez, Tenerife

11 comentários:

César disse...

Caro Manuel, devo informar-lhe que a Naviera Armas deixou de realizar a rota Canárias-Madeira-Portimão desde 28 de Janeiro tendo originado alguns incómodos quer a exportadores como importadores que utilizavam o navio para transporte de mercadorias.

http://www.dnoticias.pt/actualidade/economia/304622-buzinao-e-palmas-na-despedida-ao-armas

Manuel disse...

Caro Visitante, tem razão eu sei, tenha em atenção que este artigo do amigo Gonçalo, foi já publicado anteriormente no jornal Correio dos açores, na altura ainda existiria a ligação.
Achei por bem publicar, pois embora tenha essa questão, é um tema sempre interessante para as ilhas e as suas ligações marítimas.
Cumprimentos,
Manuel

Berto Garcia disse...

Es increible que una oportunidad de unir Canarias Madeira se terminara rompiendo por impedimentos de unos y otros ..una pena saludos

Anónimo disse...

Parte I

César, é verdade o que disse e é realmente uma pena que tenha acabado a tal ligação após anos a funcionar tendo começado de inicio apenas entre a Madeira e as Canárias mas também é certo que o abandono ficou muito dever-se à pressão de certos e determinados lobbys que sempre viram naquele serviço uma concorrência incómoda (se é que existe concorrência que não seja incómoda.. excepto para os clientes, claro!). Que isto sirva de aviso para o que poderá acontecer nos Açores se algum grupo privado tentar ligar os Açores ao exterior com ferry com capacidade para carga rodada, principalmente se fôr um grupo que nada tenha a ver com os já instalados e que fazem serviço contentorizado e de carga geral. Repare que na Madeira a população bem esperneou, bem gritou, bem escreveu mas de nada adiantou.
O artigo em cima serve também para pegar na questão das ligações ferry dentro dos Açores. As autoestradas maritimas que também existem ou devem existir entre as ilhas. Não é só entre as regiões e o continente. O ARMAS quando começou com navios Ro-Ro em Canárias e com o conceito de "autoestrada maritima" foi dentro das Canárias ou seja, inter-ilhas. Não foi para o exterior. Falou-se no artigo atrás na alternativa ferry para o transporte de passageiros incrementando o turismo e falou-se bem pois veja-se no caso do Porto Santo em que a esmagadora maioria dos passageiros que circulam entre a Madeira e essa ilha vão é de ferry. Nem é de avião. A carga geral e até contentorizada entre as duas ilhas vai é em ferry ou porta contentores. Não vai em pequenos navios de carga geral. Isso já lá foi o tempo na altura em que existia na Madeira uma tal de "Globus Line" que tinha cargueiros que levavam carga geral e contentores e só faziam as ligações entre as duas ilhas, além claro da PSL com o antigo "Madeirense".
Uma coisa é o serviço ferry inter-ilhas nos Açores outra coisa é o serviço das ilhas para o Continente. Quando e se esse serviço para o exterior surgir nos Açores, convém como já vi defendido por várias pessoas que o serviço ferry inter-ilhas já esteja bem estabelecido com uma base regular anual senão torna-se dificil viabilizar ligações só para Ponta Delgada com uma cadência semanal que agrade ao passageiro incluindo no periodo de inverno.
O trabalho de base que era a construção de rampas Ro-Ro em todas ou quase todas as ilhas dos Açores está a ser feito (discussão sobre a dimensão das mesmas e localização das mesmas para mais tarde em outros posts e quando o Manuel tiver tempo para mais uma vez absorver todos os comentários que sempre surgem de gente furiosa falando do que não devia ter sido feito nas Portas do Mar e deveria ter sido feito no molhe comercial ou as coisas que deviam ser feitas sim em ambos os sitios mas foram feitas com a prioridade errada ou na dimensão errada, isto relacionado com as rampas Ro-Ro claro). Além das rampas são necessários os ferrys. Já nem vou falar de todo o processo de aquisição/construção dos ferrys e da Atlanticoline porque nos Açores já foi por demais discutido e continua a ser discutido e neste blog já foram escalpelizados de trás para a frente cada avanço e recuo. Também não vale a pena agora falar do emigrante açoriano "tal" que queria investir no sector e não o deixaram ou acharam que a solução que ele apresentava não era a melhor, se o tipo de navios que ele propôs não era o melhor etc.

Anónimo disse...

Parte II

Os factos "concretos" neste momento são estes:

Para haver uma ligação ferry dos Açores para o exterior convem que todo o sistema ferry inter-ilhas nos Açores já esteja em velocidade de cruzeiro (como foi sugerido atrás) e que seja coordenado com a data da possivel escala do ferry do exterior em PDL. Dispersa como está a população/turismo nos Açores e pela sua dimensão será dificil de outra maneira viabilizar as ligações com a regularidade desejada pela população e quando falo em regularidade já falo em funcionar o ano inteiro.
Não vejo o ferry para o exterior escalar pelo menos de inicio mais do que 1 porto nos Açores.

"Donde surgirá o ferry para o Exterior?"

Escreve-se muita coisa, às vezes em jeito de brincadeira ou mentira outras vezes mais a sério mas a verdade é que as pessoas já deviam aprender com o dito popular de que "não há fumo sem fogo" e portanto correm rumores de que:

1- Um grupo de empresas/armadores portugueses (inclui madeirenses) estaria interessado em fazer o serviço de ferry/carga rodada do Continente para a Madeira/Açores e que terá andado a sondar o mercado à procura de ferrys em 2ª mão.

2- Uma empresa italiana, aparentemente a Grimaldi, "mostrou-se interessada" em fazer ligações ferry do continente para a Madeira.
"Mostrou-se interessada" neste caso não quer dizer um avanço concreto. Pode significar apenas requisitar informações junto das autoridades competentes.

A solução de um ferry a ligar os Açores para o Continente em principio irá surgir de uma destas hipóteses "cozinhadas" na Madeira ou em Itália. Quiçá poderá até aparecer uma 3ª hipótese metendo o ARMAS de novo pelo meio. Quiçá também já surgiram outros movimentos ou intenções.

Neste momento o que temos é isto!
O futuro a Deus pertence.

DavidB disse...

Na BTL em Lisboa perguntaram a Secretaria do Turismo aqui da Madeira e ela disse que estavam a negociar com um armador , mais era tudo muito recente e não queria comentar mais sem ter mais adiantado as conversações ....

O Armas saio da Madeira porque tinha ganho umas novas linhas que davam mais lucro ....

O grande prejuizo que o Armas teve na rota foi ele teimar em ligar a Madeira a Canarias no Inverno ele ia quase vazio e vinha quase vazio

Muita gente diz que a culpa é do AJJ e dos lobbies , a borla que o Armas queria na Madeira( razão principal para largar a rota) era de 1 Milhão de € em taxas , não foi dado porque o Memorando da Troika dizia que deveria ser subido as taxas e não desaparecido ....digamos que o AJJ dava a borla que o Armas queria , eles continuariam com 5 Milhões de prejuizo ....

quem quiser ter lucro na rota Madeira/Continente tem de esquecer Canarias no Inverno e tem de parar no Porto do Caniçal ....

Eu sei que o Sr Farinha (O grande defensor do Armas na Madeira) ira ficar irritado pelas coisas que escrive .....


Mais

O Armas tinha contratos com Varios empressarios Madeirenses que acreditaram nele envestiram em trelas e de um momento para outro ficaram sem o transporte , em Fevereiro vinha uma noticia que o Sr Nobrega das Carnes (também tem negocios nos Açores) pedia uma indeminização de 500 000 € ao Armas ( ele so tinha 2 trelas), se todos os empressarios enganados pedirem indeminização ....o Armas vai se dar mal .....mais o estranho é que ninguem fala nisso, sera que eles empressarios sabem algo que a maioria dos Madeirenses não sabe ....


Desculpe Sr Manuel ter falado sobre os Armas e a Madeira eu sei que este topico era para falar sobre a vossa situação e não a nossa .....

Sobre os Açores também acredito que tem-se de criar uma boa rede de linhas internas 1º que abasteçam o porto que o Ferry que vem de fora ira atracar (digamos P.Delgada) .
Tem-se de criar volume de carga em P.Delgada para a operação ter sucesso e para isso tem-se de ter uma boa rede interna


Fique bem

Manuel disse...

Caro DaviB, e restantes visitantes, os comentários são bem vindos, e nos transportes as diversas linhas estão inter-ligadas, com a desistência da Armas da Madeira, fica também mais longe esse sonho para os Açorianos.

A todos Votos de uma Boa Páscoa
Manuel

Gerundine disse...

O DavidB disse o seguinte:
"quem quiser ter lucro na rota Madeira/Continente tem de esquecer Canarias no Inverno e tem de parar no Porto do Caniçal ...."
Errado! Ninguém na Madeira está para ir apanhar um ferry no Caniçal nem esse porto está preparado para circularem lá passageiros pois têm de passar pela zona de carga. Os passageiros também dão lucro a um ferry. Não é só a carga rodada. Os senhores do Caniçal é que ficaram muito incomodadinhos com a concorrência. Tiveram mais de 30 anos para arranjar um ferry e não o fizeram, portanto tinham mais é que estar calados. Se quisessem podiam fazer o mesmo serviço que o ARMAS fazia que seriam bem acolhidos no Funchal. Não o fizeram porquê? Pois é. E se um dia um ferry "alheio aos grupos instalados" tentar ligar os Açores ao exterior já se está mesmo a ver a quantidade de pressões que vai sofrer. Infelizmente é assim. Já agora conheço muita gente que faz as compras de Natal nas Canárias e costumam existir charters nessa altura portanto essa coisa de que para Canárias não é viavel no Inverno, depende do nº de frequências. Sempre conheci emigrantes madeirenses da Venezuela que têm amigos e familia em Canárias porque tambem os canarianos têm muitos emigrantes na Venezuela e mantêm depois contacto com seus amigos e familiares madeirenses quando ambos voltam às ilhas. Uma linha ferry para Canárias vale também pela carga rodada pois não esqueçamos que está mais perto da Madeira do que o Continente e a linha contentorizada da OPDR faz habitualmente só o sentido Madeira-Canárias e não o oposto.

Gerundine disse...

Houve outra coisa que não percebi no comentário do DavidB:
Explique-me lá como é que o ARMAS ia colocar o ferry na Madeira para fazer a linha do Continente sem vir primeiro de Canárias. Isto implica sempre fazer a linha para Canárias incluindo no Inverno. A linha que o ARMAS fazia para a Madeira e Portugal era uma espécie de "biscate de fim de semana" que ocupava um ferry desde a 6ª feira até a 3ª feira de manhã. Durante a semana o ferry tinha muito trabalhinho em Canárias. Não era uma coisa do género do que a ARMAS faz de Motril para Melilla em que tem um ferry só para aquilo lá baseado. É uma questão de posicionamento do ferry. Durante o inverno o que ajudava a manter a linha do Continente para a Madeira eram os passageiros e carga rodada que iam para as Canárias desde Portugal, Espanha (continental) e todo o resto da Europa. O que é que ajudou a matar esta linha? A abertura da linha directa de Canárias para Huelva. Assim toda a carga e passageiros que queriam ir apenas para Canárias passou a não ter de usar a linha de Portimão principalmente se não eram portugueses ou não vinham de Portugal. As Canárias ajudavam a manter esta linha no Inverno. O problema no caso dos Açores era também esse, estar mais fora de mão ou fora da zona que pudesse aproveitar as Canárias para justificar uma linha para o Continente. Agora Açores e Madeira terão de bastar-se a si própios e encontrar uma solução que justifique a existência de linhas directas para o continente sem ter como feeder o mercado de 2.117.519 habitantes (censos oficiais de 2011) e muito turista das Canárias. Esse é o desafio actual. Que venham italianos ou seja lá quem fôr mas que não se repitam as pressões que se fizeram sobre o ARMAS senão qualquer dia estes estrangeiros vão com uma queixa para a UE e vai ser bonito vai. Se os nossos empresários queriam viver protegidos no mercadinho interno tivessem pensado nisso antes de entrarem na CEE há anos atrás. Agora querer receber o dinheirinho de fora mas querer continuar a ter a "casinha protegida e segura" ai isso é que não pode ser minha gente. É que os outros também não são parvos.
Uma chamada de atenção: A Fred Olsen que segundo me consta originalmente é norueguesa, opera nas Canárias em serviço inter-ilhas há muitos anos. Isto podia acontecer na Madeira ou nos Açores? Deixavam? Quantas "comadres" é que não teriam já dado gritos de pavor e de "ai jesus"? Vão reflectindo nisso. Após essa reflexão já chegarão onde quero chegar e onde muita gente já chegou há muito tempo.

DavidB disse...

Gerundini,escreveste bonito mais ...nem tudo está certo, ainda não percebi qual é o problema com o Caniçal , sei que tira meia hora de viajem , não tem nenhum tipo de restrições de carga , o ferry poderia viajar sem os tratores, tudo beneficios , quanto aos passageiros pequenas obras dariam os minimos necessario.


Sobre o que mantinha a linha no Inverno era os passageiros e a carga para Canarias isso não é verdade e daqui para a frente ainda seria pior já que as novas ligações da Peninsula (Es) até Canarias tirariam qualquer tipo de competividade a linha que passava na Madeira .

Pregunta como o Armas colocaria o Ferry na Madeira sem ir a Canarias simplesmente não ia a Canarias e dobrava as viajens a Madeira ou juntaria os Açores a rota .

A rota da Madeira/Canarias seria feita por outro ferry com base em Canarias e seria alimentado por passageiros e carga de Portimão Madeira e Açores.

Para esta rota ter mais viabilidade tanto nos como os Açorianos deveriamos aumentar as trocas comerciais com Canarias, que até agora tem sido muito poucas

Sobre a FredOlsen não entendi onde quer chegar , Thomas Olsen chegou a Canarias em 1904 para produzir produtos agriculas para enviar para Uk , como teve dificuldades em exportar os seus produtos e como a familia dele tinha experiencia no ramo ele montou a FredOlsen Espanha , ele não apareceu do nada para lutar com os que estavão já instalados ele vio uma oportunidade e batalhou apartir dai , se a historia dele tivesse sido aqui na Madeira estou certo que não haveria brigas de comadres porque simplesmente as comadres existentes na altura que ele começou não tinham poder ..


eu poderia continuar a dar a minha opinião sobre cada ponto que me atacou mais por respeito ao Sr Manuel e ao Blog por hoje fico-me por aqui

E que venha a Grimaldi ou outro qualquer outro operador para ficarmos todos a ganhar e que se lembre também da rota Madeira/Açores para podermos estar todos unidos

Manuel disse...

Amigo DaviB e Gerundine, os vossos comentários são bem-vindos, estou a gostar de ler e aprender, os comentários servem precisamente para isso.

Ao ler os comentários fiquei com vontade de escrever um post sobre a Fred Olsen Canárias, e sobre a chegada do Thomas Olsen a La Gomera, tenho uma admiração por esta história, porque tal como diz o amigo Davib, ela surge da necessidade de exportar produtos agrícolas de La Gomera. Aliás em determinada altura chamou-se Ferry La Gomera.
Um Abraço a todos e votos de Boa Pascoa
Manuel